25 agosto 2006

Em ti Kafka

Tenho medo,
Terror de mim próprio,
Porque não consigo caminhar justamente,
Porque me perdi
E já não me encontro.

Tenho terror porque estou só,
Porque o barulho é tanto e a água vai subindo,
Porque já ninguém me salva,
De mim próprio,
Da minha mente,
Imaginação,
Fértil em perversão.

Tenho dias, talvez meses,
Mas tenho que fugir desta pele que me consome,
Desta carne que me queima,
E encontrar aquela outra alma,
Que este corpo fez abandonar.

Agora é muito mais difícil,
Deitei as minhas armas fora,
Estou sem protecção,
Apenas tenho as minhas mãos,
Que só servem para me asfixiar.

As marés estão desordenadas,
O vento está contra mim,
A minha boca tem medo das alturas,
Os meus olhos aterrorizam-se com a destruição,
Já não sabem distinguir o real da ficção.

Preciso encontrar-Te,
Aniquilar-me e
Renascer...

Psicologia

Invadidos pelo tal sentimento
De quando aquele cheiro,
A terra molhada nos inunda,
Perdemos as forças,
Caímos de joelhos,
Fazemos perguntas,
Gastamos lágrimas,
Suspiramos mudanças.

Ficamos acordados até chegar a madrugada,
Até sentirmos saudades dos antigos amigos,
Aqueles que nunca nos telefonaram,
Que nunca chegámos a tocar,
Mas com quem compartilhamos alegrias secretas e silêncios públicos,
A eles amámos e eles nos amaram.

Agora somos insensíveis,
Perdemos o Norte,
Não vivemos, nem sequer respiramos,
Apenas vagueamos nas asas do desejo,
De sermos melhores.

Queriamos tanto pegar-lhe ao colo,
Limpar-lhe as lágrimas,
Pedir-lhe desculpa,
Protejê-la de nós e deste mundo cruel,
Que não lhe deu a meninice,
Nem sonhos realizáveis,
Queriamos-lhe cantar:
"Mamã, mamã,
Onde estás tu, mamã?
Nós sem ti não sabemos, mamã,
Libertar-nos do mal..."

Queremos amar-te, mamã...

11 agosto 2006

Voz

Também quando Govinda olhou para aquele rosto
Aquele rosto já cansado e velho,
Aquele rosto calmo e simples, que tantas formas tomava
Também ele viu a minha face, os meus olhos,
Que tal como os do novo Sublime procuram o verdadeiro Eu, a Unidade.
Também ele viu o meu nascimento, a minha juventude, a minha velhice, a minha morte,
Mas não em separado,
Quando olhou para o rosto do Sublime e viu todas aquelas faces,
Quando olhou para aquele rosto ancião e viu a minha face,
Viu todas as coisas como uma continuidade,
Como toda uma roda da perfeição,
Como um.
O passado, o presente e o futuro não existiam naqueles rostos,
O tempo morreu naquela face,
O Sublime descobrira a Verdade,
E a Verdade somos todos nós,
A Verdade são todas as coisas,
A Verdade é uma só.
E em todas estas coisas ecoava uma só palavra,
Um só som,
Aquilo que os indianos chamam o Om sagrado,
Que não é mais do que o som do Universo,
A voz do Mundo e do seu povo de crianças, que são os homens,
A Verdade surgia assim:
O Perfeito Amor.

05 agosto 2006

Baunilha

O Outro subiu a rua sem olhar para trás,
Mas onde estavam os meus braços para o ir abraçar?
O espanto do Outro é maior que o Mundo,
Ao olhar os pés.
O amor do Outro pelas coisas é simples,
E não questiona.
O Outro engolia a sua Coca-Cola fresca de notícias,
Mas não as compartilhou,
Ouviu e guardou.
O Outro não sabe o que são espelhos,
Nunca se viu reflectido e por isso não faz comparações.
O Outro é mais olhos que boca,
E aquilo que vê não sabe descrever.
O outro não és Tu,
Mas parece que apenas te amo,
A Ti.

02 agosto 2006

No entando não se pode matar um morto.

Esperei aquele homem antes que tivesse um nome, um rosto, quando não era mais do que a minha longínqua infelicidade.
Não olhei os homens a não ser como se olham os passantes diante do guiché de uma estação, a fim de termos a certeza de que não são aquilo que esperamos.
Foi por ele que a minha ama me enfaixou ao sair da minha mãe; foi para fazer as contas de ser lar de homem rico que aprendi o cálculo na ardósia da escola. Para pavimentar a estrada onde se pousaria talvez o pé desse desconhecido que faria de mim sua serva, teci lençóis e estandartes de ouro; à força de aplicação, deixei cair aqui e ali, sobre o tecido macio, algumas gotas do meu sangue.
Consenti em fundir-me no seu destino, como um fruto na boca, para não lhe trazer senão a sensação de felicidade.
Vós não o conhecestes senão engrandecido pela glória, epécie de enorme ídolo gasto pelas carícias das mulheres asiáticas. Apenas eu o frequentei na sua época de deus. Era-me doce, sobrecarregada com o peso da semente humana, pousar as mãos sobre o meu ventre espesso onde cresciam os meus filhos. À noite, de regresso da caça, lançava-me com alegria contra o seu peito de ouro. Mas os homens não são feitos para passar toda a cida a aquecer as mãos na fogueira de um mesmo lar: ele partiu para novas conquistas, e deixou-me ali como uma casa vazia cheia do bater de um grande relógio.
O tempo passado longe dele corria sem emprego, gota a gota ou por torrentes, como sangue perdido, deixando-me em cada dia mais empobrecida de futuro.
Os anos seguiam-se ao longo das ruas desertas como uma procissão de viúvas; a praça da aldeia estava negra de mulheres de luto. Eu invejava essas infelizes o não terem senão a terra por rival, e de saberem pelo menos que o seu homem dormia sozinho.
Substituia-me pouco a pouco ao homem que me fazia falta e pelo qual estava possuída.
Infiel áquele homem, imitava-o ainda.
Não há senão um homem no mundo: o resto não é para uma mulher senão um erro ou um triste mal menor. E o adultério não é muitas vezes mais do que uma forma desesperada de fidelidade. Se enganei alguém foi esse pobre Egisto. Tinha necessidade dele para saber até que ponto aquele que eu amava era insubstituivel.

M.Y.

31 julho 2006

Mentiras


Cortaste a própria língua
Para não revelares os segredos que não tens.
Porque te custa assim tanto ouvir a verdade?
Uma palavra serve para te cortar a razão.

Já não te conheço,
Tens medo.
E de quê? De mim?
As minhas mentiras são-te mais agradáveis
Do que a verdade do meu coração.

Este ar gélido que me trespassa o corpo
Faz-me ver que ainda existo para além das tuas mãos,
Para além dos teus lábios,
Muito para além da tua voz,
Porque poucas vezes me pronuncias na sofreguidão da noite.

Para ti todos os dias são areia,
Cada grão passa como tantos outros, não deixando rasto,
Na enormidade do deserto.
Para ti todas as noites são vitórias,
Glórias de guerras que nunca travaste,
Porque tu nunca pegaste em armas,
Porque tu nunca acertaste no teu próprio ventre.

E se para mim todas as lutas são com a minha lingua,
Com as minhas visceras,
Sendo eu presa fácil das minhas angústias,
As mentiras são a minha causa de morte,
Porque para ti a verdade tem sempre um preço,
Nem que seja de ver os teus olhos rebaixarem-se á luz da calçada,
E deixares-me apedrejada pelas minhas próprias palavras.

27 julho 2006

De tanto chorar o meu coração quebrou...

Acordei e começaram a cair estrelas do céu,
Caiam sobre a minha casa,
E eu via toda a minha familia de luto,
Via toda aquela gente transfigurada
E a música do assobio lá ao longe.

Sentia-me imunda, inerte
Fui até à rua e o fogo caia sobre mim,
Deixava-me inundar daquele ardor.
Estava a ver a minha vida,
O meu egoísmo, minha tristeza,
Infeliz que eu era enquanto as estrelas caiam sobre a minha cabeça.

O dia do juízo virá, e eu?
Quem serei eu?
Faz-me mal, eu sei...
Não sei aproveitar bem.
Não o consigo salvar, ele não me ouve,
Não me consigo salvar, eu já não vejo.
As estrelas cegaram-me.
Só sinto o meu fim.

Sentia que era este ano, no calor das estrelas,
Sem antes algum dia eu brilhar.
Não vou voltar para aquele lugar obscuro,
Naquele funeral macabro de mim mesma.
Prefiro ser queimada pelas estrelas,
E ver de que é feito o meu corpo.
Mesmo que não seja de diamantes,
Ao menos não será de cinza, de pó da terra.

Que caiam as estrelas do céu,
Esmaguem a terra,
Que eu sairei a correr,
Sairei na esperança de encontrar salvação,
Ainda que no meio da escuridão da cegueira.

Última Hora

Só penso em ti
A minha televisão já nem funciona,
Deixei de estar ligada aos acontecimentos
Só estou ligada a ti.

Ela viola-me a alma,
Incrimina-me de todos os crimes
Sobrevoa a minha vida
Com uma frase de amor.

Como o mosquito sobrevoa a minha cama
Todas as noites sem cessar,
Na esperança instintiva de arranjar uma gota de sangue,
Por mais amarga que seja.

E alimenta-se, dia-a-dia,
Ficando em mim a borbulha,
A reacção alergica às suas acusações.

Nunca me peças tu o preço que ela exige,
Seria um amor tão caro como a vida
Mas por ti talvez a daria...

26 julho 2006

Depois de mim

Onde andas tu meu anjo?
E onde anda o meu olhar?
Que nem os meus olhos te beijam,
Nem o meu Deus me deixa amar...

Por ser eu mortal
E tu infinito
A minha vida traz me o sal
Desse mar que é o meu grito.

Por o nosso amor
Não encontrar o seu porto,
O meu refúgio é o meu mundo,
Onde tudo parece morto.

Não vai haver ninguém que faça chover assim...
Depois de mim...
Eu já não existo...

ET




Estrela, estrela
Como ser assim?
Tão só, tão só
E nunca sofrer.

Brilhar, brilhar
Quase sem querer
Deixar, deixar
Ser o que se vê.

No corpo nu da constelação
Estás, estás sobre uma das mãos
E vais e vens como um lampião
Ao vento frio de um lugar qualquer.

É bom saber que és parte de mim
Assim como és parte das manhãs.
Melhor, melhor é poder gozar
Da paz, da paz que trazes aqui.

Eu canto, eu canto
Por poder te ver
No céu, no céu
Como um balão
Eu canto e sei que também me vês
Aqui, aqui com essa canção.

Gastei os trunfos

O canto do vento
O cerrar dos dentes
Desfeitos em raiva.

Almanaque dos disturbios
Minha alma vive dividida,
Entre a divindade ilusória e a ilusão da realidade.

Se não é por eles que vou ser feliz,
Por quem será?

Só vejo numa linha,
E estou presa
As cordas desse cifrão têm-me amarrada.

Mas porque é que a minha morte
Havia de ser injustiçada
Por um punhado de moedas?

Sigo o caminho frio
Em busca do ouro
E prossigo.

Não sei o futuro,
Não sei o fim desse jogo,
Já não sinto o fogo em mim...

24 julho 2006

Meninas

Têm que compreender:
Que as doze badaladas são o fim;
Que os olhos se inundam muito mais vezes;
Que tudo é muito mais frágil;
As dores são sempre maiores;
A morte é sempre mais cruel;
Que as horas são sempre efémeros segundos;
Que a vida é uma eterna prisão;
Que o prazer tem sempre castigo;
Que há sempre um pecado;
Nunca salvação;
Que a manhã é pesada e brusca;
Que os ombros têm mais responsabilidades;
Que as mãos carregam os traumas dos outros;
Que os sonhos são sempre ficção;
Que os homens só fazem feridas;
Mas a menina é que se torna no vilão.

14 julho 2006

Juncos Silvestres


Lisboa hás de ser sempre só,
Hás-de sempre parecer irreal,
Hás-de sempre alimentar esperanças e de matar paixões,
No acto supostamente mais puro das coisas.

Lisboa, hás-de sempre ter essas casas
Que me parecem sempre minhas
Sem nunca as ter habitado,
Hás-de sempre me mostrar esse meu lado mais honesto, mais lusitano.

Mas esse fado que encerras nas tuas ruas,
Essa pobreza que quer trespassar a alma,
Há sempre de me levar à fatalidade,
A um erro que, num minuto, te retira essa tua atmosfera de progresso.

Lisboa, lembras-me a saudade que tenho de mim,
E agora sinto esta tristeza
De não te voltar a encontrar.
O encontro na mística de azul e rio...

05 julho 2006

Deixaste de fazer sentido...


I forget how we put in a bubble and blow it...

04 julho 2006

O pintor morreu...

Hoje voltei a sonhar com a tua partida,
Sinto que vais partir antes de mim, sem mim,
E que eu vou ficar mais tempo.

O comboio a partir
Já nem consigo distinguir
A tua farda e a cabeça rapada
No meio de tantas outras.

O tempo não passa,
Tu é que passas por ele,
Sem nunca lhe pedir para ele me levar até ti...

A toalha branca na mesa,
Parece agora mais branca de solidão,
E a tua pele cada vez mais negra,
Do cativeiro solar.

As minhas mãos na água,
Os lençois do teu leito magmático a lavar,
Os nossos segredos e teias a secar,
Pelo contar dos anos,
O teu cheiro a desaparecer do meu mundo,
Pelo contar dos meses.

Vejo o carteiro a chegar,
Trazendo a notícia de que nunca mais vais voltar,
Perdido na selva da glória,
Nas luzes da ribalta,
Não há guerras, não há histórias para contar.
Apenas eu, sózinha nesta cidade amaldiçoada,
Fechada no teu olhar, já sem luz.

E a tua linhagem terminou,
Pintor, nem em mim deixaste em vez de sangue a tinta de teus quadros.
Em mim só retrataste mágoas,
E agora me aniquilas, sem me eternizar.

Permanecem as tuas telas, os teus pinceis,
Que me vão lembrando da tua vaga existência,
Do teu vago beijo da despedida,
Que talvez tenhas relembrado
Quando a bala te tirou a vida...

26 junho 2006

Dele não digam mal nem bem, porque ele está acima do bem e do mal...

Fui à tua procura,
E subi o jardim, virei na esquina,
Entrei pela porta da tua suposta casa,
Estava lá toda a gente,
E eu procurava-te, no meio daquela pequena multidão,
Onde estavas?

Por mais que chamasse por ti apenas via uma pequena parte do teu todo,
Por mais que rebuscasse em mim o teu sentido
Só conseguia pensar-te no meio daquele pinhal,
À beira-mar, calmo e mudo.
Nem uma palavra nem um gesto,
Apenas o olhar,
Aquele olhar de quem nada desconhece,
Mas que precisa de fazer todas as perguntas possiveis,
Precisa de obter todas as respostas.

E a tua casa estava quase morta,
A tua chama quase apagada,
O fogo caía do céu.
Fugi, escapei,
Ou então fui engolida por um mal maior,
Não sei...

Não me arrependo de ter andado perdida,
Sei que ainda existes, apesar da tua casa ter ardido,
O tempo está a acabar, mas eu encontro-te,
Ali, tão perto,
Quando vou andando de costas voltadas para o futuro,
E o vejo, naquela sua felicidade.

Então, conversamos durante a viagem,
Falas-me das catástrofes naturais, dos lugares que costumas visitar,
Eu ouço, deixei de gostar de falar de mim.
Ouço com atenção, e sei que enquanto falas ouves todo o meu pensamento.
Enquanto falas sabes-me do principio ao fim.

É assim que te vejo, outra vez...
Compreendes-me, e lamentas a minha condição,
Mas que importância têm aquelas noites no alto
Comparadas com todo o meu intímo,
Com toda a ordem geral do Universo?

Despeço-me...
Gostei de te ver assim.
Toco a campainha,
Insistes ainda em comentar a condição dos teus sete palmos de terra,
De que me darás ainda uma noite como outras passadas em mim.
Desço do autocarro, vejo-te partir...

Passo a estrada,
Sinto o vento,
Sinto-me reconfortada...
Tinha saudades Tuas.

19 junho 2006

Indie Little Star

Nunca me olhas
Nunca me escutas
Nunca me beijas
Nunca me disfrutas
Nunca me respondes.

Sempre me desprezas
Sempre me silencias
Sempre me evitas
Sempre me agonizas
Sempre me questionas.

Porque tu queres que eu seja,
Porque eu nada sou,
Porque tu és simplesmente,
Porque eu não atinjo o que és,
Porque tu perguntas sempre: Porquê?

Alguém me ouviu?


Oh quão silênciosa é a minha vida,
Ele, o eterno Silêncio, presênciou o meu nascimento,
E encarnou em mim.
Em mim está o eterno Silêncio.

A minha voz calada, imunda,
Que alguém pôs dentro deste corpo
Não consegue superar o conforto
De dois lábios aparentemente cerrados,
Aparentemente inócuos.

Mas é então, nestes dedos gélidos,
Que ao tremor maquiavélico
Se pronunciam e se revelam,
Que permanece a força dessa muda voz.

É nas minhas palavras agudas
Na minha escrita desnuda
Que morre a minha voz,
E permanece esse sofoco atroz
De calar a amargura e a vontade
De te estimar.

17 junho 2006

Nós temos cinco sentidos: são dois pares e meio de asas.




Gosto do silêncio
De manter a água na boca
A refrescar a solidão.
Detesto pensar que não lhe vou telefonar,
Que telefonarei a qualquer alguém
Menos a ele.

Gosto de escrever a vermelho,
Nas páginas lisas deste meu sofoco.
Ainda não te ofereci o meu presente,
Mas com tanta coisa mais importante
Esqueces que fiquei ao frio e ao vento,
De chinelas, só para te voltar a abraçar.

E deves estar a cair de moribundo,
Todo aquele calor artificial a percorrer-te o corpo,
Mas gostas,
E esqueces o cansaço.

E aquele alguém deve estar como eu,
Entre quatro paredes trancado,
A comer do pó dos livros,
A beber da chuva de Verão.

Porém escolhi-te,
Até o meu café ficar gelado,
Até as minhas mãos ficarem quentes,
Tão quentes que não suportam agarrar as tuas.

E faz dez anos, que o outro alguém partiu,
No meio do anónimato,
No meio do nada, como ele pediu,
E só hoje conheci a sua verdadeira casa,
Só hoje consegui abrir a sua gaveta,
E deixar a flor,
A sua flor ficou, em mim.
Pelo menos está em mim
E fica.

A David Ferreira

Lacrimosa

Naquela noite subia lentamente as escadas,
E a tempestade, os raios, os relâmpagos
As grossas gotas que lhe escorriam pela face,
Tudo foi presságio do crime.

A pistola na mala, o sangue na camisola,
As mãos e o corpo suado de ter abafado uma vida
Entre gestos fúteis, inúteis, imundos.

O corpo no sofá petrificado,
As almofadas sujas, a camisa, o casaco,
O copo no chão, o whiskey entornado,
A janela aberta deixando entrar a madrugada,
Para apagar os vestígios do perfume.

E descia a rua, depois da porta trancada,
Quase nua, transfigurada,
Só guardava no peito o retrato
Do amante que havia aniquilado.

Estava feliz, havia trovoada,
A luz era irregular e chuva era escassa.
E depois de entrar no táxi despreocupada,
Chorou contente,
A sentença estava tomada.